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Saúde Digital

Saúde Digital nos Municípios: os dados que mostram por que a atenção primária não pode mais depender de papel

A saúde pública brasileira já é digital — mas ainda desconectada. Levantamos os dados mais recentes sobre prontuário eletrônico, telessaúde, interoperabilidade com a RNDS e o impacto financeiro real da fragmentação na Atenção Primária.

GMGM TecnologiaEquipe editorial11 de agosto de 202612 min de leitura

![Saúde Digital nos Municípios: os dados que comprovam a urgência da atenção primária conectada]

Saúde Digital nos Municípios: os dados que mostram por que a atenção primária não pode mais depender de papel

Todo gestor de saúde municipal já viveu a mesma cena: uma fila na Unidade Básica de Saúde (UBS), uma ficha de papel que se perde entre o posto e a secretaria, um paciente que repete o mesmo histórico de saúde para o terceiro profissional diferente porque ninguém tem acesso ao que já foi registrado antes.

O Censo das Unidades Básicas de Saúde, retomado em 2024 pelo Ministério da Saúde após mais de uma década, a Portaria GM/MS nº 3.493/2024, que passou a medir a qualidade da Atenção Primária em todo o país, e o novo Decreto nº 12.560/2025, que torna obrigatória a interoperabilidade entre sistemas de saúde municipais e a rede nacional, mostram algo importante: a saúde pública brasileira já avançou muito na digitalização — mas avançou de forma desigual, fragmentada e, em boa parte dos municípios, ainda incompleta.

Este artigo é o terceiro de uma série sobre digitalização municipal. Já mostramos por onde um município deve começar e os números que comprovam a urgência das cidades digitais. Agora, vamos direto ao ponto que mais afeta o dia a dia do cidadão e o orçamento da prefeitura: a saúde.


1. O retrato nacional: avanço real, mas ainda incompleto

Os números do Censo das UBS 2024 (Ministério da Saúde/Conasems) mostram uma rede pública que já deu passos importantes rumo à digitalização:

IndicadorValorFonte
UBS com acesso à internet94,6%Censo das UBS 2024 – Ministério da Saúde
UBS que utilizam prontuário eletrônico87%Censo das UBS 2024 – Ministério da Saúde
UBS com médico na equipe96,1%Censo das UBS 2024 – Ministério da Saúde
UBS que oferecem algum serviço de telessaúdeapenas 39% (21% teleconsultoria, 13% teleconsulta)Ministério da Saúde, 2025
UBS que compartilham o prontuário eletrônico com a atenção especializada25,3%Censo das UBS 2024
UBS integradas digitalmente com hospitais públicosapenas 9,3%Censo das UBS 2024
UBS que precisam de reforma na estrutura física60,1%Censo das UBS 2024
Municípios que já enviam dados regularmente à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)68,3% (3.805 municípios)Ministério da Saúde, jul/2025
Orçamento federal para Atenção Primáriade R$ 35,3 bi (2022) para R$ 54,1 bi (2024)Ministério da Saúde

O ponto de atenção não é a falta de prontuário eletrônico — a maioria das UBS já tem. O problema é que esses sistemas, na maior parte dos casos, não conversam entre si. Um posto de saúde pode ter prontuário eletrônico, mas se ele não se comunica com o hospital, com a especializada ou com a secretaria, o município continua operando, na prática, como se estivesse no papel — só que digital e igualmente fragmentado.


2. O dado que mais expõe a desigualdade: o gap de IDH

Se há um número desta série que resume o problema da saúde digital no Brasil, é este:

Municípios com IDH mais alto apresentam 88% das UBS equipadas com prontuário eletrônico. Em municípios com IDH mais baixo, esse percentual cai para apenas 19% — segundo dados da Estratégia de Saúde Digital citados pela Fundação Maria Emília.

Isso significa que a diferença entre um município rico e um município pobre não é só de renda — é de capacidade de cuidar bem de quem mais precisa. Um posto de saúde sem prontuário digital não só atende pior: ele também perde histórico clínico, atrasa diagnósticos, duplica exames e dificulta o acompanhamento de doenças crônicas — justamente as condições que mais pesam no orçamento da saúde municipal a médio prazo, como mostra a próxima seção.


3. Por que a continuidade do cuidado importa: o avanço silencioso das doenças crônicas

Um sistema de saúde fragmentado dói mais em um cenário onde as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) crescem em ritmo acelerado no Brasil. Os dados do Vigitel 2025 (Ministério da Saúde) mostram a escala do problema:

  • O número de adultos brasileiros com diabetes cresceu 135% entre 2006 e 2024, saindo de 5,5% para 12,9% da população adulta.
  • A hipertensão avançou 31% no mesmo período, e já é a doença crônica mais frequente entre os brasileiros — 38,1 milhões de pessoas, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE/Ministério da Saúde).
  • A obesidade cresceu 118% e o excesso de peso, 47%.
  • O custo direto do diabetes para o Brasil já ultrapassa R$ 42 bilhões por ano, segundo o Atlas de Diabetes 2025 — e a tendência, na América Latina, é de crescimento de 45% nos casos até 2050.

A boa notícia é que a Atenção Primária é, comprovadamente, o lugar certo para conter esse avanço: mais da metade dos brasileiros com hipertensão e diabetes já faz acompanhamento pelo SUS, e estudos mostram que o cuidado coordenado e contínuo — com histórico clínico acessível em cada consulta — melhora diretamente indicadores como controle da pressão arterial e taxa de reinternação hospitalar.

O problema é que acompanhamento contínuo depende de dado contínuo. Sem prontuário integrado entre UBS, especializada e hospital, cada consulta de um paciente hipertenso ou diabético recomeça do zero — e o município paga a conta disso em internações evitáveis, exames duplicados e agravamento de quadros que poderiam ter sido controlados a tempo.

Reconhecendo esse cenário, o Ministério da Saúde lançou em 2026 a estratégia Viva Mais Brasil, com R$ 340 milhões voltados à prevenção de doenças crônicas — e, mais importante para o gestor municipal: municípios com bons indicadores de qualidade podem receber até 30% a mais de recursos para fortalecer a Atenção Primária. Mais um mecanismo de financiamento que recompensa exatamente os municípios que investem em gestão e continuidade de cuidado — dois pilares que a digitalização bem-feita entrega.


4. A conta que pouca gestão está enxergando: dinheiro federal perdido por desempenho

Desde 2024, o repasse do Piso de Atenção Primária à Saúde passou a ser calculado por desempenho, com base nos escores de Qualidade e Vínculo de cada equipe (Portaria GM/MS nº 3.493/2024). Os resultados do 1º quadrimestre de 2026 mostram um cenário que deveria acender o alerta em qualquer secretaria de saúde:

  • 25,2% das equipes de Atenção Primária do país estão classificadas no conceito REGULAR — o pior nível possível de desempenho.
  • Apenas 19% atingem o conceito ÓTIMO, que garante o repasse financeiro integral.
  • Isso significa que, de cada cinco equipes avaliadas no Brasil, só uma recebe o valor máximo que o governo federal disponibiliza.
  • A perda financeira estimada, considerando a diferença entre o valor máximo (ÓTIMO) e o valor efetivamente recebido, chega a R$ 904 milhões por ano em recursos federais que deixam de entrar nos cofres municipais.

Parte relevante desse desempenho é medida por indicadores que dependem diretamente de registro digital adequado, continuidade do cuidado e vínculo longitudinal do paciente com a equipe — exatamente o que um sistema de saúde conectado, integrado entre unidades, ajuda a estruturar. Em outras palavras: a falta de um sistema de saúde bem integrado não é só um problema de organização interna — é um problema que custa dinheiro público real, todos os anos, somado ainda ao bônus de até 30% do programa Viva Mais Brasil que fica na mesa para quem não organiza a casa.


5. A nova exigência legal: interoperabilidade deixou de ser opcional

Em julho de 2025, o governo federal instituiu formalmente, pelo Decreto nº 12.560/2025, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como plataforma oficial de interoperabilidade do SUS. Na prática, isso muda o patamar da conversa sobre sistemas municipais de saúde:

  • O decreto determina que as plataformas de saúde de estados e municípios devem ser interoperáveis com a RNDS — ou seja, sistemas isolados, que não trocam dados com o padrão nacional, deixam de atender plenamente à política de saúde digital do país.
  • Até julho de 2025, mais de 80% dos estados e 68,3% dos municípios brasileiros (3.805) já enviavam registros de forma regular à rede.
  • A Paraíba foi destacada nacionalmente como estado-referência, com 100% dos municípios integrados à RNDS e patamares elevados de prontuário eletrônico — um exemplo direto de que município de qualquer porte, inclusive no Nordeste, pode liderar esse processo quando prioriza a integração.
  • O tratamento desses dados segue as regras da LGPD, com governança compartilhada entre União, estados e municípios, reforçando que segurança da informação deixou de ser diferencial e passou a ser exigência regulatória.

Para o gestor municipal, o recado é direto: não basta ter um sistema digital — ele precisa ser interoperável com o SUS Digital. Isso deve entrar como critério obrigatório na escolha de qualquer fornecedor de tecnologia para a saúde municipal a partir de agora.


6. Telessaúde: a fronteira ainda pouco explorada pelos municípios

Enquanto o prontuário eletrônico já é maioria, a telessaúde ainda é exceção:

  • Apenas 39% das UBS oferecem algum serviço de telessaúde no país.
  • Desse total, 21% são teleconsultoria (apoio entre profissionais) e 13% teleconsulta (atendimento direto ao paciente à distância).
  • O Ministério da Saúde já reconhece a lacuna: uma parceria com o Ministério das Comunicações prevê internet via satélite prioritária para 1.191 UBS em áreas remotas até o fim de 2025, justamente para viabilizar telessaúde onde hoje ela é inviável.

Para municípios pequenos e do interior — com poucos especialistas disponíveis localmente — a telessaúde não é luxo tecnológico: é o caminho mais viável para levar cardiologista, dermatologista ou psiquiatra a quem, hoje, só teria acesso viajando para a cidade polo mais próxima. E, como reforçado na seção 3, também é uma ferramenta estratégica para acompanhar hipertensos e diabéticos sem exigir deslocamento constante.


7. O que muda na prática com um sistema de saúde conectado

Um sistema de saúde conectada — que integra agendamento, prontuário, fluxo entre unidades e comunicação com o cidadão em uma única plataforma, já pensada para ser interoperável com a RNDS — ataca diretamente os gargalos mostrados pelos dados acima:

  • Reduz fila e retrabalho, ao eliminar a necessidade de o paciente repetir informações já registradas em outro atendimento.
  • Melhora os indicadores de Qualidade e Vínculo que hoje definem o repasse do Piso de Atenção Primária, ao estruturar continuidade do cuidado e histórico clínico acessível à equipe.
  • Facilita a integração entre UBS, especializada e, futuramente, hospital — hoje presente em menos de 10% dos casos no país.
  • Abre caminho para telessaúde, já que uma base de dados clínicos organizada é pré-requisito para qualquer teleconsulta ou teleconsultoria funcionar bem.
  • Sustenta o acompanhamento de doenças crônicas ao longo do tempo, com histórico acessível em qualquer ponto da rede — essencial diante do crescimento de 135% no diabetes em menos de 20 anos.
  • Atende à exigência de interoperabilidade do Decreto nº 12.560/2025, evitando que o município fique descolado do padrão nacional de saúde digital.

Foi com esse racional que desenvolvemos, na GM Tecnologia, o sistema de Saúde Conectada entregue para a gestão municipal de Umbuzeiro (PB): uma plataforma que integra unidades de saúde, agendamentos e prontuários da rede municipal em um único painel, acessível tanto pela equipe de saúde quanto pela gestão — substituindo planilhas soltas e cadernos de agendamento manual por um fluxo único e rastreável, com a Paraíba, não por acaso, entre os estados de referência nacional em integração à RNDS.


8. Como estruturar a saúde digital no seu município: roteiro completo

Se você é secretário de saúde, gestor de TI ou assessor de prefeito, o caminho mais realista para sair do diagnóstico para a prática costuma seguir esta ordem:

Etapa 1 — Diagnóstico

  • Mapear quantas UBS têm prontuário eletrônico e quantas ainda dependem de papel.
  • Verificar se os sistemas existentes conversam entre si ou funcionam como ilhas isoladas.
  • Conferir a situação do município junto à RNDS (integrado, em processo ou ainda fora da rede).

Etapa 2 — Priorização

  • Priorizar integração antes de expansão: de nada adianta comprar mais um sistema se ele não vai se comunicar com o que já existe na rede.
  • Olhar para os indicadores de Qualidade e Vínculo do município no novo modelo de repasse — eles mostram, com precisão, onde a Atenção Primária está perdendo recursos federais.
  • Avaliar viabilidade de telessaúde, especialmente em áreas com déficit de especialistas presenciais.

Etapa 3 — Execução

  • Escolher um parceiro técnico que entenda o fluxo de saúde pública, não apenas tecnologia genérica.
  • Exigir compatibilidade com a RNDS e conformidade com a LGPD como critério não negociável.
  • Planejar a migração de dados históricos para não perder o vínculo clínico já existente com os pacientes.

Etapa 4 — Acompanhamento

  • Medir tempo médio de atendimento e redução de deslocamento do paciente.
  • Acompanhar a evolução trimestral dos escores de Qualidade e Vínculo.
  • Verificar elegibilidade a programas de bônus como o Viva Mais Brasil (até 30% a mais em recursos).

Perguntas frequentes de quem está avaliando digitalizar a saúde municipal

Meu município é pequeno, vale a pena investir em saúde digital agora? Sim — os dados mostram que é justamente nos municípios menores e de menor IDH que a lacuna de digitalização (19% x 88%) é maior, e são eles que mais perdem recursos federais por baixo desempenho no repasse por qualidade.

Preciso trocar todos os sistemas da rede de uma vez? Não. O caminho mais eficiente costuma começar por um piloto (uma UBS ou o fluxo de agendamento, por exemplo) e expandir depois, sempre com compatibilidade com a RNDS desde o início para evitar retrabalho futuro.

Isso realmente afeta o orçamento da prefeitura, ou é só um ganho de "imagem"? Afeta diretamente: repasse por desempenho, elegibilidade ao Viva Mais Brasil e redução de custos com exames duplicados e internações evitáveis são impactos financeiros mensuráveis, não apenas institucionais.


A saúde pública já é digital. A pergunta é: ela está conectada?

Os números deixam claro que o problema da saúde municipal brasileira, hoje, não é falta de tecnologia — é fragmentação. Prontuário eletrônico em 87% das UBS, mas apenas 9,3% integradas a hospitais. Orçamento federal crescendo, mas 25,2% das equipes ainda no pior nível de desempenho. Interoperabilidade agora exigida por decreto, mas quase um terço dos municípios ainda fora da rede nacional. A infraestrutura básica já chegou — falta conectar as pontas.

Se a sua prefeitura ou secretaria de saúde quer sair do prontuário isolado para uma rede de saúde realmente conectada — ou já identificou a perda de recursos federais por desempenho e quer reverter esse cenário — fale com o nosso time comercial ou conheça os produtos e projetos da GM Tecnologia.


Fontes: Ministério da Saúde / Conasems (Censo das Unidades Básicas de Saúde 2024), Portaria GM/MS nº 3.493/2024, Decreto nº 12.560/2025 (Rede Nacional de Dados em Saúde), UniverSaúde – Plataforma Saúde Brasil 360 (Resultados da Atenção Primária à Saúde, 1º quadrimestre de 2026), Vigitel 2025 – Ministério da Saúde, Atlas de Diabetes 2025, Pesquisa Nacional de Saúde – IBGE/Ministério da Saúde, Fundação Maria Emília (Saúde Digital no Brasil), CGI.br/Cetic.br (TIC Saúde 2022), Agência Gov / Agência Brasil (Censo das UBS, jun/2025; RNDS, jul/2025).

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